Estou em um desses dias em que olho pedra e só vejo pedra mesmo. Assim, passava por mim uma crônica sem que eu percebesse, mas eis que minha vizinha a escreveu para mim. Transcrevo:
(Antes preciso dizer que no elevador do meu prédio há um L, lá em baixo de todos os outros botões. O L é inapertável e mesmo que fosse possível apertá-lo, não levaria a lugar algum.)

Quando entramos no elevador havia um pai com uma revista e duas filhas, com cerca de sete e nove anos. A mais nova apertou o quarto, virou-se ao pai e disse:
_ Papai, para que serve o L?

Todo morador sabe que a garagem é G e a portaria P. Assim sendo, o pai respondeu prontamente e sem desviar o olho da página:
_ Não há L, minha filha
_ Tem sim, papai. Olha!
_ Não há L, minha filha. O L não existe.

O homem se despediu educadamente, deram se os boa noites.

_ Fico muito satisfeita ao ver esses pais com tanta paciência com os filhos – disse a vizinha.
_ Oi? – respondi, desconcentrada.
_ O L existe. Que existe, existe. O pai disse que não; a menina olha tonta, deve ser doida, viu o L, mas ele não existe. Mas que existe, existe. E continua ali: todo L e sorrindo.

O homem grande

Há ao meu lado um homem grande – preciso escrever. Sorte minha letra ser ilegível, que ele poderia ler meu bloquinho, tão perto que está. Mas todos olham para frente: há uma palestra. Já não sei mais do que se trata porque o homem grande tem as mãos enormes e o peito e as costas. Vejo minha cabeça em seu peito, sento no seu colo com a cabeça em seu pescoço. Tenho vontade que ele me abrace com as mãos grandes no meu quadril. Olho tanto o homem e tanto penso. Tenho medo que ele perceba. Ele é todo grande, os ombros, as pernas, as mãos. Nunca reparei homens grandes, mas tenho vontade de olhá-lo. Então olho os ombros e os braços.