Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie.

Ontem sonhei que ia a igreja (mas uma outra igreja, nova) e no caminho passei por um caminhão frigorífico de peixe. O fato-sonho é que haviam três homens mortos estirados no chão e um deles usava um boné –esse me chamou muito a atenção, era forte e novíssimo. Perguntei a alguém o que acontecera: o caminhão travou as portas e todo gelo de derreteu matando os homens afogados.Isso um passante, que estava parado, me contou sem mais. Não havia nem curiosos, era uma coisa banal.

Mas dizia que ando medrosa e  estive estudando para recuperar a fé, o que foi um fiasco. É verdade que fui a uma igreja nova, mas fui para entender  porque me afastava, não para ser resgatada. Se corresse o risco de ser convertida, não iria a uma igreja pentecostal. Se bem que essa não fosse, mas ontem mesmo no trânsito – já que a praia foi interditada para o evento religioso – ouvi na rádio da igreja universal (tenho essa mania) a recomendação do bispo para a mulher separada: frequentar o culto aos domingos e levar uma peça de roupa do marido. Em sete dias, dizia a mulher em depoimento comovido, ele que era bêbedo e havia encontrado uma amante no bar, voltara para casa.