Sinto me apresentar assim: como um pedaço de papel. Sou a senhora 901 da torre B deste condomínio. Recebi ontem, por meio do encarregado, uma notificação assinada pela senhora e endereçada a meu avô, proprietário deste apartamento, que informa ter sido identificado que eu infringi a Convenção Condominial.

Sinto decepcionar meu avô que me confiou este apartamento. Depois, peço sinceras desculpas por não observar as regras internas de convivência, coisa tão básica que me envergonha ter dado desnecessário trabalho a senhora – que apesar de seus afazeres diários ainda se dedica nobremente ao bem estar de nossa comunidade.

Confesso que tenho andado omissa e por isso me desculpo não só pela não observância do código, mas pelo completo desleixo que tive com ele: não consegui descobrir o que fizemos que possa ter ido de encontro a Convenção Condominial.

A notificação diz que infringi o artigo 5° letra G que dispõe: “Não decorar as paredes, portas e esquadrias externas com cores ou tonalidades diversas” e Letra I “Não colocar nem deixar que coloquem nas partes comuns do edifício quaisquer objetos sejam de que natureza forem”.

Sou tão desligada dessas coisas de decoração que não sei, veja, o que exatamente significa essa palavra. Tive que pedir ajuda ao meu dicionário de cabeceira que assim me orientou: decorar vtd enfeitar, tornar mais bonito, aprender de cor.  Visto isso, posso te garantir com honestidade que decorar é coisa que nunca fui dada a fazer.

Sou avessa à decoração, nunca às normas. Um dia, quando puder, passe em minha casa e verá que claramente que ela não contou com a presença de um decorador. As coisas cumprem suas funções, sem muita harmonia estética.

Mas passe em nossa casa e verá que há um conjunto de normas, estabelecidas por nós e deixadas clara aos visitantes e amigos logo na entrada de casa: aqui é proibido fumar, que temos um filho pequeno e é proibido dar refrigerante para o neném, que temos certas tendências natureba.

Garanto a você que nunca decorei paredes, portas e esquadrias externas com cores ou tonalidades diversas. Tampouco me recordo, perdoe, de colocar ou deixar que coloquem nas partes comuns do edifício quaisquer objetos sejam de que natureza forem.

Assim, não sabendo o que descumpri, fui notificada a providenciar a reposição original da porta no prazo de trinta dias.

Sinto muitíssimo, mas não será possível. A porta original foi completamente destruída e nem para fazer prateleira serviu.  É verdade, Leni, conforme relataram, troquei a minha porta, mas devo dizer que não foi decoração.

Um dia meu marido saiu para o cinema, foi direto do trabalho, e eu combinei por telefone que abriria a porta assim que ele chegasse. Nesse dia estava especialmente cansada e superestimei minha capacidade de me manter acordada. Ele tocou, tão diversas vezes, e não tendo sido ouvido teve um mau presságio.

Nesse dia, murrou a porta com tanta força que acordou minha vizinha. Prontamente, e era tarde da noite, ela se dispôs a ajudar. Pensou que se tratasse de uma briga de casal, ofereceu um pouso para ele aquela noite.

Tratava-se de sono, mas para ele era já desespero. Pensou que poderia ter ocorrido algo a mim ou a meu filho e derrubou a porta a chutes. (Não zanguei com ele, Leni, pelo contrário. Meu marido é um cara bom a ponto de as vezes não ser racional. Um dia venha conhecê-lo.)

Mas dizia que troquei a porta sim, não a decorei. Fiquei sem a porta da frente e não encontrei para vender porta semelhante a as portas da maioria do condomínio, embora tenha procurado.

O vendedor de uma das lojas disse, ao ver a foto em meu celular, que essas portas estão fora de linha e de moda: que besteira é esse assunto de decoração. Por fim, não escolhi porta do meu agrado – que não entendo de porta – mas comprei a que a loja disponibilizava pronta entrega.

Portanto, não decorei a porta com cores ou tonalidades diversas. Não decorei coisa alguma nunca em minha vida. Contudo, minha nova porta ficou sim em tonalidade diversa, mas porque não tive o capricho de envernizá-la.

De qualquer maneira, se colocar verniz na minha nova porta for contribuir para o bem estar e a convivência entre os moradores, me disponho com carinho a cumprir a notificação antes mesmo dos trinta dias que me foram dados. Vou aguardar somente a indicação de um profissional da maior confiança do condomínio que posso me ajudar na agradável tarefa de manter o padrão.

Como já disse, me agradam padrões e me incomoda, mesmo neste prédio, pequenas transgressões a eles. Se não me manifesto, peço desculpas novamente, é que tenho sido omissa.

Incomoda-me a escada – lugar onde já passei uma experiência terrível por causa da minuteira, que não é de longe o sistema mais apropriado de iluminação para uma escada – descumprir normas da ABNT, me incomodam vírgulas excessivas em comunicados diversos, me incomoda a altura de água da piscina estar acima do padrão.

Nada disso disse antes, embora pudesse melhorar a vida de meus vizinhos. Não tenho sido uma boa vizinha, sei, mas como o Braga continuo sonhando com o dia em que os vizinhos vão bates em minha porta :“Vizinha, vi que sua porta foi arrombada, está tudo bem? Conheço um bom marceneiro”. “Vizinha, vi que você me convidou para o aniversário de seu filho”. Entre, coma do meu pão e beba do meu vinho. “Eis-me aqui, vamos celebrar a vida”.

Natasha Siviero – 901B