Era uma borboleta num meio fio. Não voava, mas batia as asas apesar de mim. A dor era dor física, nunca escrevi sobre ela. Também nunca havia sentido uma dor feito aquela, uma dor de limite. Se disser que a sensação era de morte é por falta de jeito de explicar. A verdade é que não era, mas eu não queria usar a palavra transcendência. (é que sou contra a banalização das palavras) Era uma sensação de auge, quando não há como subir. A dor era pior antes de atingir o auge. Agora, no limite, eu entrava num estado em suspenso.A sensação estável em seu auge.

Nesse estágio em suspenso nada me ocorreu. Foi uma espécie de esclarecimento vazio, como é todo esclarecimento. Nenhum pensamento, e sentimento era só a dor (em suspenso) e a borboleta no meio fio.

Só depois tive medo. Quando remédio fez efeito senti fome e medo. O médico disse que podia ser grave e, fosse o que ele esperava, operávamos dali a pouco. Então já não era a borboleta no meio fio. A dor se sobrepõe ao medo A dor encoraja? Sem dor somos covardes. Ou humanos.

Falava do medo. O medo é que sabia que não podia encarar Deus. Preciso ainda alfabetizar três crianças. Quem sentiu a sensação de dever cumprido senão professora de menino? Só quem ensina a ler.

O episódio aconteceu há algumas semanas. Hoje fui ao médico chegar tudo e está tudo okay, Nunca mais senti dor. Mas não alfabetizei ninguém.