Ivaní não vem mais. Pediu conta hoje cabisbaixa e cabisbaixa saiu. Não deu um mês aqui em casa. Com duas semanas, achou demais.

Achei mesmo que ela não estava se acostumando com a liberdade lá de casa. Sem hora para chegar, sem hora para sair, sem dia certo para trocar os lençóis.

_Troque quando estiver sujo, Ivaní.

E como o salário era pouco, não achava direito de cobrar qualquer coisa de Ivaní. Mas ela não se acostumou à falta de um lugar para guardar as coisas, de uma prateleira para cada coisa e para tudo me perguntava, onde fica, Natasha, cada coisa tem que ter seu lugar.

A hora de acordar é a hora do Miguel, a de comer, é quando dá fome. Ivaní, pode almoçar a qualquer hora, eu aqui vou esperar Rafael.

Ivaní é uma pessoa boa, de uma bondade triste de mãe. Uma bondade triste de não sei o que mais. Só sei que ela só ri e tem um marido bem mais velho que morava na roça e que ela diz:

_ Ele é bom para mim, é velho e muito sofrido.

 Ivaní não se acostuma com a liberdade, eu pensei. Mas vem ela um dia de manhã, com sua roupa de ir embora do serviço e me mostra a suprema liberdade. A liberdade que só tem quem não tem nada. A liberdade de não querer mais e sair. Sem outro emprego, sem outra fonte de renda, que seja. A gente se vira com o que tem. A liberdade de quem antes, pode escolher as poucas escolhas que tem.

 Ela escolheu o tempo todo. Ela testou a gente algumas semanas. Eu querendo assinar carteira e ela com um papo de que vocês tem que me testar antes. Mas ela é que testou e escolheu sair da casa que não tem lugar de guardar as coisas.

Ontem fiquei com saudade da rotina, desde que casei não tenho uma. Com o neném, tive que instituir uma rotina simples, mas é a minha própria regra e posso quebrá-la a qualquer tempo.

Ainda estou me acostumou a isso. Ivaní não se acostumou. Ivani, de sempre, tem sua suprema liberdade e foi embora, sem se justificar, embora eu não tivesse perguntado.

Vou ter que arrumar outra moça, que bote um pouquinho mais de sal no feijão. Outra moça menos perguntadeira.