Moramos em casa emprestada e quem não conhece nem a mim nem a Rafael pode nos acusar de ingratidão e desleixo. A primeira acusação não procede e recai sobre nós, igualmente. Digo que somos gratos e tanto e tão felizes com a nossa casa que a sentimos muito nossa e raramente nos lembramos que não é, mas é que ela é sim e nos foi empestada com todo carinho.

 A segunda pesa sobre mim e não tenho muitos argumentos para refutá-la, que “muito caprichosa” é qualidade que sempre ouvi, nunca se tratando de mim. Nossas toalhas de mesa, tão lindas, não são usadas nem nossos jogos de copos e talheres e nunca combinamos os lençóis de cama e as toalhas de banho, me disseram que deveriam ser arrumadas em composè,

Não sei dizer o que há mais tempo está quebrado em nossa casa, se a luz, que queimou o disjuntor ou se a porta do quarto de Miguel, que certa vez Rafael arrombou e tirou a fechadura.

A porta do banheiro está desgastada na extremidade, quando a madeira vai apodrecendo com a umidade. O berço de Miguel também está quebrado há tempo e o sistema de sobe e desce inutilizado, o que me dói um pouco as costas ao colocá-lo para dormir, mas quero falar do filtro.

O filtro certa vez queimou a tomada, não sei dizer por quê. Tiramos então da energia e passamos a dizer que a água quente era por causa do bebê – agora que Miguel está um moleque, não temos mais desculpa. Ontem chegamos em casa, a cozinha alagada que o filtro tinha vazado, me deu pena ver aquela água perdida.

Miguel foi para o berço, Rafael saia para dar aula, em mim batia o sono de sábado, mas havia uma cozinha para secar. O vento forte aqui em casa me trazia preguiça e idéias.

Quando Rafael voltou, quis saber das portas e janelas todas abertas em casa e da ventania que circulava. Ele perguntou, já fechando a porta que dá para a varanda. Pedi que esperasse, só mais um pouquinho, que o vento quase terminava de secar a cozinha. Ele sorriu com aprovação: por isso casei com você. E resolvemos o problema fechando o registro.