Falaram que não posso centrar a crônica no meu próprio umbigo, mas hoje decidi não me policiar: confesso que tenho sido egoísta. Falo de um caso que poderá não fazer sentido a mais ninguém, mas conto como se importasse. Espero que pelo menos quem tenha uma avó possa me entender e sorrir, com compaixão por mim ou por ela.

Detesto mesquinharias. Sou tão desatenta a coisa pequena que faz melhor você, meu amigo, desistindo de me mandar um bolo, caso essa possibilidade já tenha passado por sua cabeça.

“Natasha não devolve tapuer”, é o que minha avó está espalhando por aí. Mas se você não tem contato com a sabedoria da velhinha, encarrego eu mesma de alertá-lo: não devolvo.

Primeiro foi um bolo, depois brigadeiros, gentil, vovó. Mas tenho cá minha teoria que antes ela espera pela minha gafe. Não quer me agradar, minha doce vó, quer o gosto de me acordar antes do usual e dizer que tudo desanda em sua cozinha sem os tapuer (qual é o plural de tupperware, meu Deus?).

Juntei os ditos e os meti dentro da bolsa, já imaginando que minha fama de desleixada se agravaria ainda mais pelo fato de estar devolvendo os vazios. Minha avó mora do lado da casa útil, pensei. Não é melhor comprar cinco potes novos por 1,99 a atormentar uma pessoa assim tão desnecessariamente?

Concluí que sim, ainda mais sendo eu a pessoa. Nesse momento passou Aline, que tomou uma vasilhinha da minha mão, menos interessada na história que contaria e mais no som que tirava do plástico.

Se alguém perguntar por mim, diga que fui por aí, levando um violão debaixo do braço. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. E se houver motivo, é mais um samba que eu faço.

Batucamos as duas todo nosso caminho em direção à segunda aula e quem esbarrou conosco batucou também. Mas ah! nosso som era muitíssimo mais bonito, por que eu tenho avó e um tapuer vazio na bolsa.