Antônio e Maria não se dão. Desde que os conheço, já pelo menos cinco anos, sabendo onde está Antônio, sabe-se com precisão onde não está Maria. Nunca os vi conversar: apensas trocam informações de necessidade iminente. Nesses casos, ambos visivelmente contrariados, tratam-se com tom cortês e cumprem a risca um rápido protocolo. Chamam-se de senhor e senhora e desejam-se os cumprimentos: bom dia, boa tarde, boa noite, com licença.

Não sei dizer a quantos anos eles estão de mal. Pode ser coisa acontecida desses tempos para cá, pode ser coisa antiga, que eles já se conhecem há muitos anos, só de casados contam 40. Dizem que a verdade é que esses dois nunca se deram.

O que sei é que não dividem o mesmo ambiente e muito raro conversam (a não ser, como falei, as coisas muito indispensáveis). Nesse dia, porém, eis que os vi debatendo. Veja que não disse conversando, mas debatendo, coisa mais elevada. E em pauta estava um assunto superior que era nada menos de Abraão que falavam.

Dona Maria narrava um acontecimento bíblico para uma pequena audiência, a título de recordação. Antônio mal estava por perto, às vezes ouvia trechos da conversa e não se incluía. Tudo, assim, conforme o esperado.

Até que seu Antônio entrou na conversa em que Maria participava. Pior, seu Antônio discordou de dona Maria. Aliás pior ainda, dona Maria não cedeu ao argumento de Antônio e tratou de discordar do marido. Os outros ouvintes, assuntados, se abstiveram todos e a discussão se tornou um debate, dos mais entusiasmados, com formalidades de título,é verdade, mas sem os ensaiados protocolos.

Foi difícil chegar a discussão. Até então, desatenta, eu que não participava diretamente da audiência sabia a meramente que se tratava de Abraão. Puxei da memória antigos conhecimentos da catequese. Estariam discutindo sobre a aliança de Deus? Falavam do sacrifício? Sobre a escrava que Abraão tomou por esposa com consentimento de Sara? Falariam da circuncisão?

Me juntei, como quem não quer nada, e a discussão era mais ou menos essa: de uma lado Maria “foi o burro”. D’outro Antônio “não tem burro”. Pediram-me, para opinar. O que discutem, perguntei? “Abraão foi chamado a sacrificar seu filho Isaac, relatou-me Antônio. Certo, respondi. Ao subir o morro, quem levou a lenha?

_Oi?! -perguntei.

_Foi o burro! -disse dona Maria

_Pois nessa históia não tem burro, disse seu Antônio.

E o burro fez o que o padre não fez; fez o que nem o tempo foi capaz de fazer. Só o burrinho lenheiro, existindo ao não existindo,os uniu finalmente em matrimônio, feito um casal.