Um amigo me fez uma pergunta simples e profundíssima. Obviamente esperava de mim uma demorada reflexão e uma resposta cheia de redundância enfática. Decepcionei-o com uma sentença besta e um tanto nojenta. O que de maior você já fez pelo seu filho? era a pergunta. Fígado!: assim, na lata, não gastei meio segundo.

Antes de casar não havia cozinhado, nada, mesmo. Depois que casei, os amigos vinham em casa e tinham a impressão que eu fazia dieta. Era salada de alface o que saia, que nunca me propus a cozinhar carne. Aliás, fui mesmo dessas crianças modernas, de apartamento, de babá. Não suporto ver carne crua e frango inteiro na mesa, não como.

Chegou, porém, o dia de fazer a primeira comidinha do neném. Era mãe novata, tão cuidadosa, tão cheia de querer fazer tudo e quis fazer eu mesma, com a ajuda da receita do médico: sopa de fígado.

Fui pela primeira vez ao açougue. Fígado não é carne feito as outras carnes, que não cozinho. Fígado é a carne que não mexo, nem cozida, que não posso nem com o cheiro. Segurei bem na pontinha da sacola.

Em casa, sozinha, Miguel dormia o soninho da manhã, mas breve acordava para o almoço. Foi preciso encarar, com pressa, sem muita cerimônia. Quem sabe com que embrulho no estômago cortei aquela carne, refoguei, fiz a sopa. Que sopa terrível. Eu era mãe.