Papai disse que acabara de constatar que estava ficando velho. Isso foi quando, passando os canais da televisão, viu o padre Fábio falar sobre o valor das coisas, o foi o suficiente para levá-lo a refletir sobre aquilo.

Concordei que ouvir o padre na TV era um forte indicio do que constatara, mas depois também me senti bem mais velha que meus 22.

Meu pai explicou o argumento do padre – que as pessoas podem atribuir diferentes valores às mesmas coisas – com meus irmãos de exemplo.

Lá em casa, o ritual das provas na escola se repetia sempre igual, só o que mudava era a série. Minha irmã sempre compenetrada nunca estava suficientemente preparada para a matemática. E, apesar de estudar constantemente, na semana da prova dobrava a atenção às equações.

Depois de abrir mão das brincadeiras dos meninos do prédio e dos passeios em família, ela fazia a avaliação e voltava desiludida. Havia ido mal. Reclamava sucessivos almoços e nós, que já estávamos acostumados, nem fingíamos interesse. Depois lá vinha ela com uma cara lavada e um dez na bolsa, que não era surpresa para ninguém.

Já meu irmão nunca se deu com português, até hoje não se dá. Às vezes precisava mesmo de nota ao final do bimestre, porque achava as palavras longas e as cortava pela metade. Mamãe, quando sabia da prova, o procurava:

_Juju, você estudou?

Minha mãe cumpria seu papel, mas a verdade é que meu irmão tinha sempre a mesmíssima resposta, acompanhada de um sorriso em linha que cobria meia boca:

_Mãe, a matéria é tão fácil, tão fácil, nem preciso estudar. Já sei tudo porque estudei para a prova passada.

Mamãe dizia que tinha medo dessas respostas do meu irmão, mas eu a aconselhava que o deixasse. Afinal, ele já tinha nove anos e sabia de suas responsabilidades.

Eu, que já trabalhei com funcionários públicos, nunca imaginei que fosse me prestar a um concurso e nem que fosse incentivar alguém nesse caminho. Mas também não pensei precisar tão cedo do salário pouco de jornalista iniciante. E eis que nos inscrevo e me pego fiscalizando Rafael:

_Essa matemática de concurso é tão fácil, mas tão fácil, meu bem, nem dá gosto.

Meu irmão hoje está se formando engenheiro e jura que não sente a menor falta do português que deixou para trás. Mas quando me lembro da nota apertada e do sorriso meia linha que ele trazia no rosto, jurando não entender o que acontecia, me pego feito velha, cobrando Rafael que estude. E tenho saudade da sabedoria que tinha aos dez.