Author Archives: sambaprasmoças

Já aconteceu de começar a ler um livro mais de cinco vezes e nunca conseguir terminá-lo. É que algumas palavras me consomem. Esse do Ubaldo eu comprei em um sebo e nunca pude sequer iniciar a leitura. Para Berenice como tudo mais; a dedicatória, antes que eu chegasse à primeira página. Ele amava a mulher com tudo e eu nunca (?) saberia amar como a Berenice.

Um dia brincávamos de jogos de tabuleiro na casa do Marlon, a tarefa era adivinhar o nome de artistas pelas dicas que os outros jogadores davam. A essa altura, eu já sabia que se tratava do escritor, mas minha vez tardava a chegar e continuavam as dicas. “Tem uma filha chamada Berenice”, disse meu amigo.

Era filha dele! Tudo se iluminou e eu me senti mais humana.

Eu a desejo desde que é apenas uma idéia. Mas se eu dissesse que desejei apenas que viesse com saúde, estaria me atribuindo virtudes que não soube ter. Pedi que viesse com saúde, fosse menina e tivesse os olhos do pai. Sendo atendida em todos os meus desejos, chamei-a Maria. E a amarei como a Berenice.


Estudar é mais difícil para quem é casado. Aliás, digo que estudar é muito difícil para quem é casado e não tenho afirmado verdades com tanta freqüência. É que quando o padre diz que dois se tornam um, ele diz como se soubesse.

Tudo o que precisa de um tempinho seu, um lugarzinho seu, um minutinho de silencio que seja (ah o silencio!) é uma guerra que se tem que travar.

É que um quarto é pouco, uma televisão é pouco, uma casa é pouco e mesmo duas casas seriam pouco, quando de repente se desaprende a ficar sozinho. Não digo por você, mas por mim, e em respeito a quem sabe, uso eu, mas a verdade é que acredito que fatalmente nenhum de nós sabe.

Não sei comer sozinho, não sei dormir sozinho, não sei pendurar a roupa sozinho, não sei cozinhar sozinho – neste caso é bem verdade que cozinhar eu não sei de qualquer maneira.

Disse que não tenho dito muitas verdades, mas permita me dizer ainda mais uma. Preciso ficar sozinha para fazer qualquer coisa que não sei. Sei que preciso, mas não tenho conseguido. E cansada de culpá-lo, vou culpar a quem?

Pedi que ele saísse pois é barulhento e eu precisava estudar. Mas o frio, e essas paredes que eu já me acostumei…Ouço barulho de chave e não é ele, o elevador e não é ele,olho da janela e vejo que ainda nem no quarteirão se pode vê-lo. Mais dez minutos e eu também precisarei sair.


A casa é grande e nova, e essas paredes amarelas…A cozinha está coberta de liquidificadores e os armários de cristais, e essas paredes amarelas. Tudo é novo, novíssimo, tudo é impecavelmente novo e limpo, meu Deus, como eu tenho saudade da minha casa! Com coisas e barulhos de casa. Como eu tenho saudade da minha casa de paredes branquinhas e barulho de irmãos.

Mas eu quero a casa em que eu não era visita. Que a chegada sem solenidade valia somente um olá cotidiano. Eu quero a casa da minha coberta e da minha varanda, mas aonde quer que eu vá sou visita: na minha casa ou nessa, das paredes amarelas.

Eu fui expulsa ou fugitiva? Eu não tenho medo de querer voltar, mas eu quero, profundamente quero ter um canto só meu (dentro dessa casa vazia nada é meu). Dizia que quero profundamente ouvir os barulhos de casa, sentir o cheiro de casa e com a naturalidade que é chegar a um lugar a que se pertence. Mas nada do que eu faça faz que volte.

Casar é sonho e uma tristeza profunda. A culpa de quem abandonou e dor de quem foi abandonado. Não há nada nessa casa que eu conheça, nem eu. Uma mulher casada que é desesperadamente filha e irmã e está profundamente sozinha.

 


 Papai disse que acabara de constatar que estava ficando velho. Isso foi quando, passando os canais da televisão, viu o padre Fábio falar sobre o valor das coisas, o foi o suficiente para levá-lo a refletir sobre aquilo.

Concordei que ouvir o padre na TV era um forte indicio do que constatara, mas depois também me senti bem mais velha que meus 22.

Meu pai explicou o argumento do padre – que as pessoas podem atribuir diferentes valores às mesmas coisas – com meus irmãos de exemplo.

Lá em casa, o ritual das provas na escola se repetia sempre igual, só o que mudava era a série. Minha irmã sempre compenetrada nunca estava suficientemente preparada para a matemática. E, apesar de estudar constantemente, na semana da prova dobrava a atenção às equações.

Depois de abrir mão das brincadeiras dos meninos do prédio e dos passeios em família, ela fazia a avaliação e voltava desiludida. Havia ido mal. Reclamava sucessivos almoços e nós, que já estávamos acostumados, nem fingíamos interesse. Depois lá vinha ela com uma cara lavada e um dez na bolsa, que não era surpresa para ninguém.

Já meu irmão nunca se deu com português, até hoje não se dá. Às vezes precisava mesmo de nota ao final do bimestre, porque achava as palavras longas e as cortava pela metade. Mamãe, quando sabia da prova, o procurava:

_Juju, você estudou?

Minha mãe cumpria seu papel, mas a verdade é que meu irmão tinha sempre a mesmíssima resposta, acompanhada de um sorriso em linha que cobria meia boca:

_Mãe, a matéria é tão fácil, tão fácil, nem preciso estudar. Já sei tudo porque estudei para a prova passada.

Mamãe dizia que tinha medo dessas respostas do meu irmão, mas eu a aconselhava que o deixasse. Afinal, ele já tinha nove anos e sabia de suas responsabilidades.

Eu, que já trabalhei com funcionários públicos, nunca imaginei que fosse me prestar a um concurso e nem que fosse incentivar alguém nesse caminho. Mas também não pensei precisar tão cedo do salário pouco de jornalista iniciante. E eis que nos inscrevo e me pego fiscalizando Rafael:

_Essa matemática de concurso é tão fácil, mas tão fácil, meu bem, nem dá gosto.

Meu irmão hoje está se formando engenheiro e jura que não sente a menor falta do português que deixou para trás. Mas quando me lembro da nota apertada e do sorriso meia linha que ele trazia no rosto, jurando não entender o que acontecia, me pego feito velha, cobrando Rafael que estude. E tenho saudade da sabedoria que tinha aos dez.  


Já aconteceu de começar a ler um livro mais de cinco vezes e nunca conseguir terminá-lo. É que algumas palavras me consomem. Esse do Ubaldo eu comprei em um sebo e nunca pude sequer iniciar a leitura. Para Berenice como tudo mais; a dedicatória, antes que eu chegasse à primeira página. Ele amava a mulher com tudo e eu nunca (?) saberia amar como a Berenice.

Um dia brincávamos de jogos de tabuleiro na casa do Marlon, a tarefa era adivinhar o nome de artistas pelas dicas que os outros jogadores davam. A essa altura, eu já sabia que se tratava do escritor, mas minha vez tardava a chegar e continuavam as dicas. “Tem uma filha chamada Berenice”, disse meu amigo.

Era filha dele! Tudo se iluminou e eu me senti mais humana.

Eu a desejo desde que é apenas uma idéia. Mas se eu dissesse que desejei apenas que viesse com saúde, estaria me atribuindo virtudes que não soube ter. Pedi que viesse com saúde, fosse menina e tivesse os olhos do pai. Sendo atendida em todos os meus desejos, chamei-a Maria. E a amarei como a Berenice.

 


O professor passava o passo. Todos com seus pares, menos a velha, que sentada. Começou o bolero e ela ria e cantava, qualquer coisa de primavera. Todos dançavam, menos a velha, mas era ela que sabia de corte liso.