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Uma mulher que não faz o serviço de casa serve pela libido. Mas para que serve uma mulher sem libido que não faz o serviço de casa, é o que tenho me perguntado nesse cinco de março. Há muito se passou o cinco de março, mas ela faz como se nem desse conta, por que tem o bloquinho. Esse bloquinho serve um pouco para distrair as pessoas: a moça cuida do bloquinho como um tesouro. Ninguém pode pegar o bloquinho e nele ela escreve tanto, tão compenetrada e com mistério que as pessoas ficam se perguntando: o que será que tanto a moça escreve no bloquinho? Ao invés de também se perguntarem para que serve moça distraída, sem libido e que não faz o serviço de casa.

 


Se não escrevo não é o tempo que me falta, mas o amor, que me comovia às coisas pequenas. E mesmo o amor às grandes causas não tem habitado em mim. A discussão sobre quem é deus tem sido infrutífera. Ò Deus, habite em mim o amor.


Desculpem-me os outros pequenos, Gustavo que me fez conhecer o amor, Rômulo que me ensinou a escrever a noite, mas é Marcel que eu vou cantar e o que só o não-amor é capaz. O não amor e um homem preto e muito magro e um lugar em minhas costas que só ele foi capaz e um jeito de (des)tratar uma mulher.


Há ao meu lado um homem grande – preciso escrever. Sorte minha letra ser ilegível, que ele poderia ler meu bloquinho, tão perto que está. Mas todos olham para frente: há uma palestra. Já não sei mais do que se trata porque o homem grande tem as mãos enormes e o peito e as costas. Vejo minha cabeça em seu peito, sento no seu colo com a cabeça em seu pescoço. Tenho vontade que ele me abrace com as mãos grandes no meu quadril. Olho tanto o homem e tanto penso. Tenho medo que ele perceba. Ele é todo grande, os ombros, as pernas, as mãos. Nunca reparei homens grandes, mas tenho vontade de olhá-lo. Então olho os ombros e os braços.


Para Márcia

Num livro antigo, havia um marca página com uma dedicatória. Muito simples e, embora tratasse “a meu querido amigo”, fora toda escrita a lápis, até a exclamação que fechava com um coração dando ponto ao verso. Datava de 2002. Perguntei ao meu marido, por acaso, quem era Márcia. Respondeu que uma antiga namoradinha. Senti inveja de Márcia, como ela se escrevesse agora. Era capaz de escrever a lápis, desmanchar e escrever de novo, um verso tão simples que à caneta ficava bobo. Como que por excesso de zelo, desandasse. Escolheu cada preposição e trocou por outra, cada palavra e vírgula onde não havia. O lhe, por exemplo, soou tão pouco natural. Fora colocado ali e retirado e por fim colocado novamente. Já escrevi carta de amor. Há muito não escolho uma preposição – não por amor!Há muito não escolho uma preposição com insegurança, com mão fria, a lápis.


Há uma cena em minha cabeça, essa que eu vi hoje. Mas não pretendo contá-la, apenas descrevê-la, que sua beleza é tão explícita! Primeiro, confesso que não sou dessas que preferem ler um livro em sua língua original. Não, eu assumo humildemente que leio as traduções e que minha preferência por literatura brasileira é antes a preferência da língua: gosto do português, como de nenhuma outra.

Mas digo isso por que há um trecho em inglês na cena que vou contar e que não posso mudar –nem quero –sequer traduzi-lo.

Passei pelo escritório, meu marido tocava violão para meu filho. Não é que tocasse violão com meu filho por ali, tocava para ele e com amor nos olhos.

It´s not time to make a change
Just relax and take it easy
You´re still young That´s your fault
There´s so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want you can marry
Look at me
I am old but I´m happy