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Mariana não é triste, é bonita e magra, fala baixinho. Exagerando, diria que ela tem a idade da criança que toma conta.

_Fiz 23 semana passada. Paty me deu um celular.
_Mas você parece tão novinha…

Estávamos na cozinha. Eu fazia uma comidinha para meu filho e ela sentada mexia no telefone novo.

_Você veio para cá há muito tempo?
_Xi, tem mais de dois anos que estou na Patrícia.
_Você é de onde?

Mariana disse o nome do lugar, que não me recordo, e completou que é a cidade das babás. “Sabe aquele condomínio novo em Camburi, de frente para o mar –disse orgulhosa –todas as babás são da minha cidade”.

Mariana me contava que tem 2 chips no celular. Um só para falar com a tia, que mora perto da mãe. A mãe vive na roça onde não pega telefone, por isso ela dá notícia através da tia. “E minha tia é uma segunda mãe. Morei 13 anos na casa dela, tomando conta dos meninos dela. Não era bem um trabalho, ela não me pagava, mas me dava as coisas”.

_Tenho saudade, mas não voltava para lá. Lá é muito ruim de trabalho, a gente não ganha tão bem quanto aqui. Aqui eles pagam muito bem.
_E você vai lá ver sua mãe.
_Ah! Isso sim. Vou todo mês, quando folgo.
_Só folga uma vez no mês?
_É, mas daí fico cinco dias.

Mariana me contou da irmã, que também é babá e já está velha, com 27 anos vive na casa dos outros, não tem amigo nem namorado. “Tem é nada dela”.

Alguém entrou na cozinha: Viu, Mariana? Natasha tem sua idade e já está aí, casada, fazendo a comida do filho. E você não tem nem namorado. É. –disse ela – mas sem tristeza.


A greve de ônibus obrigou as mães a descerem ao parquinho. As babás chegariam, mas atrasadas. E se não saem cedo de casa, os meninos quebram tudo. Então, foram todos ao parquinho e, quem sabe, mais tarde iriam também à piscina. Os meninos comemoravam a greve, sem saber.

Hoje, finalmente, conheci as mães dos amiguinhos de Miguel. Uma, muito simpática, veio vê-lo. Pegou no colo –não me importei –e abraçou-o como uma tanto de nostalgia. Depois a nostalgia passou e ela me devolveu o neném. Ele ria para ela, como sempre faz com todo mundo, com a língua de fora e cara de sapeca.

_ Como ele é simpático! Os meus nunca foram. Agora mesmo aquela menininha sentou para brincar com o Fernando e ele disse: não venha brincar comigo que eu sou chato e enjoado – disse, procurando encontrar a filha, que corria pelo parquinho – Bia, venha ver o neném.

Sem conseguir subir o degrau que separa o parquinho, onde ela estava, do calçadão, onde estávamos, a menina fica parada e recusa a ajuda da mãe.

_Eles vão ficando independentes, menina, querem fazer tudo sozinho.

Não tenho muita noção de idade de criança. Sei só até o cinco meses, depois é no chute, e muitas vezes erro feio. Diria que a menina tem cerca de três anos. Ela bate na altura do meu joelho e se você tiver a impressão que ela tem mais ou menos idade, é provável que esteja certa, eu realmente não tenho muita noção.

_Vem colinho mamãe, filha. Você ver neném.

Ela não foi. Bom foi saber que as outras mães também têm o meu defeito de suprimir as preposições quando tratam com os pequenos.

Abaixei para ela ver o neném. Sorriu.

_Você também era lindinha minha filha. E gordinha. Ai!

_Para mãe. – repreendeu a menina.

A mãe pediu para pegar de novo o meu filho. Abraçou-o com a nostalgia e o alívio de quem não vai mais ter filhos. “Dá muito trabalho”.

Peguei meu filho de volta, buscando afastar o pensamento de que um dia ele não vai mais querer vir no colo, e fui com ele para a sombra, que o sol estava forte.

Debaixo da árvore havia outra mãe, no lugar da babá. Essa deve ser professora, porque corrigia uns textos, com cara de exercício de colégio. Gritou ao filho:

_Joãooo, chega aqui. Vou mandar um papo reto com você.

No meu julgamento, João deve ter uns 5.

_Não quero você perto da água, tá ligado? Que lá embaixo eu não te vejo. Se você afoga, morre. Quer dar um rolé de bicicleta, não? É melhor que água, na moral.

Já vi João outras vezes. Confesso que faço o exercício de tentar imaginar as mães das crianças. Com João, errei feio. Aliás, errei mesmo com quase todas as crianças.

Formos para casa. No caminho, o trânsito era tão intenso que os carros até pararam na faixa. Uma moto veio pelo “corredor” e quase pegou o carrinho do neném. Xinguei o motorista e a mãe dele, que com a greve, era o dia das mães.

Passei na banca, peguei o jornal. Os ônibus estavam voltando, com as babás. E o dia das mães terminava no parquinho.