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Estudar é mais difícil para quem é casado. Aliás, digo que estudar é muito difícil para quem é casado e não tenho afirmado verdades com tanta freqüência. É que quando o padre diz que dois se tornam um, ele diz como se soubesse.

Tudo o que precisa de um tempinho seu, um lugarzinho seu, um minutinho de silencio que seja (ah o silencio!) é uma guerra que se tem que travar.

É que um quarto é pouco, uma televisão é pouco, uma casa é pouco e mesmo duas casas seriam pouco, quando de repente se desaprende a ficar sozinho. Não digo por você, mas por mim, e em respeito a quem sabe, uso eu, mas a verdade é que acredito que fatalmente nenhum de nós sabe.

Não sei comer sozinho, não sei dormir sozinho, não sei pendurar a roupa sozinho, não sei cozinhar sozinho – neste caso é bem verdade que cozinhar eu não sei de qualquer maneira.

Disse que não tenho dito muitas verdades, mas permita me dizer ainda mais uma. Preciso ficar sozinha para fazer qualquer coisa que não sei. Sei que preciso, mas não tenho conseguido. E cansada de culpá-lo, vou culpar a quem?

Pedi que ele saísse pois é barulhento e eu precisava estudar. Mas o frio, e essas paredes que eu já me acostumei…Ouço barulho de chave e não é ele, o elevador e não é ele,olho da janela e vejo que ainda nem no quarteirão se pode vê-lo. Mais dez minutos e eu também precisarei sair.


A casa é grande e nova, e essas paredes amarelas…A cozinha está coberta de liquidificadores e os armários de cristais, e essas paredes amarelas. Tudo é novo, novíssimo, tudo é impecavelmente novo e limpo, meu Deus, como eu tenho saudade da minha casa! Com coisas e barulhos de casa. Como eu tenho saudade da minha casa de paredes branquinhas e barulho de irmãos.

Mas eu quero a casa em que eu não era visita. Que a chegada sem solenidade valia somente um olá cotidiano. Eu quero a casa da minha coberta e da minha varanda, mas aonde quer que eu vá sou visita: na minha casa ou nessa, das paredes amarelas.

Eu fui expulsa ou fugitiva? Eu não tenho medo de querer voltar, mas eu quero, profundamente quero ter um canto só meu (dentro dessa casa vazia nada é meu). Dizia que quero profundamente ouvir os barulhos de casa, sentir o cheiro de casa e com a naturalidade que é chegar a um lugar a que se pertence. Mas nada do que eu faça faz que volte.

Casar é sonho e uma tristeza profunda. A culpa de quem abandonou e dor de quem foi abandonado. Não há nada nessa casa que eu conheça, nem eu. Uma mulher casada que é desesperadamente filha e irmã e está profundamente sozinha.

 


Uma mulher que não faz o serviço de casa serve pela libido. Mas para que serve uma mulher sem libido que não faz o serviço de casa, é o que tenho me perguntado nesse cinco de março. Há muito se passou o cinco de março, mas ela faz como se nem desse conta, por que tem o bloquinho. Esse bloquinho serve um pouco para distrair as pessoas: a moça cuida do bloquinho como um tesouro. Ninguém pode pegar o bloquinho e nele ela escreve tanto, tão compenetrada e com mistério que as pessoas ficam se perguntando: o que será que tanto a moça escreve no bloquinho? Ao invés de também se perguntarem para que serve moça distraída, sem libido e que não faz o serviço de casa.

 


Desde que Miguel chegou e as roupas para passar aumentaram consideravelmente, cogitamos contratar uma empregada. O problema é que como jornalista recém saída da faculdade, gastaria meu salário interino na mordomia. Entre trabalhar para ou outros e trabalhar na minha casa, ganhava mais ficando em casa e cuidando do meu filho, que ainda mama no peito.

A certeza de que este era o caminho durou alguns meses, mas foi Miguel dormir mais de 4 horas por noite e percebi que estava errada. O serviço de casa é ingrato. E sendo a casa a sua própria casa, é um trabalho ingrato que nunca acaba.

Como estava decidida a amamentar, pensei em um caminho intermediário.Assim, com meu primeiro cliente, chegou Ivani. Ivani é uma moça boa, tive muitas indicações.

O dia que ela bateu lá em casa foi um dia de muita alegria– havia tempo que não escrevia uma linha.

 

O empresário M. Souza

 

_Natasha, como é que liga essa máquina de lavar?Esses equipamentos modernos…

 

O empresário M. Souza acaba d

 

_Natasha, onde que guarda essas vasilhas?

_Nas prateleiras.

_Os copos enxuga ou é para pôr para escorrer?

_Coloca para escorrer.

 

O Empresário M Souza acaba de

 

_Eu limpo a varanda ou passo as roupas?

 

O Empresário M Souza acaba de inaugurar

 

_Natasha, não tem produto de limpeza!

_Não? Eu fiz compra ontem e poderia jurar que aqui em casa tem dois vidros de álcool.

_Álcool tem, mas tá faltando produto de limpeza.

Na tentativa de demonstrar menos minha ignorância, joguei verde:

_ Qual produto de limpeza?

_Todos – respondeu, não me dando pista alguma.

 

O empresário M Souza acaba de inaugurar seu restaurante especializado

 

_Natasha, faço o que para o almoço?

_Tem o que?

_Só tem carne moída.

_Então faz carne moída!

_Mas faço com molho de tomate, refogada, com inhame, com batata..

 

Procurava as respostas certas entre os vinte tipos de produtos de limpeza e as intermináveis formas de fazer carne moída.

 

 _Refogada?!

 

O empresário M Souza acaba de inaugurar seu restaurante especializado em frutos do mar

 _Natasha,só mais uma perguntinha…

 


Moramos em casa emprestada e quem não conhece nem a mim nem a Rafael pode nos acusar de ingratidão e desleixo. A primeira acusação não procede e recai sobre nós, igualmente. Digo que somos gratos e tanto e tão felizes com a nossa casa que a sentimos muito nossa e raramente nos lembramos que não é, mas é que ela é sim e nos foi empestada com todo carinho.

 A segunda pesa sobre mim e não tenho muitos argumentos para refutá-la, que “muito caprichosa” é qualidade que sempre ouvi, nunca se tratando de mim. Nossas toalhas de mesa, tão lindas, não são usadas nem nossos jogos de copos e talheres e nunca combinamos os lençóis de cama e as toalhas de banho, me disseram que deveriam ser arrumadas em composè,

Não sei dizer o que há mais tempo está quebrado em nossa casa, se a luz, que queimou o disjuntor ou se a porta do quarto de Miguel, que certa vez Rafael arrombou e tirou a fechadura.

A porta do banheiro está desgastada na extremidade, quando a madeira vai apodrecendo com a umidade. O berço de Miguel também está quebrado há tempo e o sistema de sobe e desce inutilizado, o que me dói um pouco as costas ao colocá-lo para dormir, mas quero falar do filtro.

O filtro certa vez queimou a tomada, não sei dizer por quê. Tiramos então da energia e passamos a dizer que a água quente era por causa do bebê – agora que Miguel está um moleque, não temos mais desculpa. Ontem chegamos em casa, a cozinha alagada que o filtro tinha vazado, me deu pena ver aquela água perdida.

Miguel foi para o berço, Rafael saia para dar aula, em mim batia o sono de sábado, mas havia uma cozinha para secar. O vento forte aqui em casa me trazia preguiça e idéias.

Quando Rafael voltou, quis saber das portas e janelas todas abertas em casa e da ventania que circulava. Ele perguntou, já fechando a porta que dá para a varanda. Pedi que esperasse, só mais um pouquinho, que o vento quase terminava de secar a cozinha. Ele sorriu com aprovação: por isso casei com você. E resolvemos o problema fechando o registro.


Ivaní não vem mais. Pediu conta hoje cabisbaixa e cabisbaixa saiu. Não deu um mês aqui em casa. Com duas semanas, achou demais.

Achei mesmo que ela não estava se acostumando com a liberdade lá de casa. Sem hora para chegar, sem hora para sair, sem dia certo para trocar os lençóis.

_Troque quando estiver sujo, Ivaní.

E como o salário era pouco, não achava direito de cobrar qualquer coisa de Ivaní. Mas ela não se acostumou à falta de um lugar para guardar as coisas, de uma prateleira para cada coisa e para tudo me perguntava, onde fica, Natasha, cada coisa tem que ter seu lugar.

A hora de acordar é a hora do Miguel, a de comer, é quando dá fome. Ivaní, pode almoçar a qualquer hora, eu aqui vou esperar Rafael.

Ivaní é uma pessoa boa, de uma bondade triste de mãe. Uma bondade triste de não sei o que mais. Só sei que ela só ri e tem um marido bem mais velho que morava na roça e que ela diz:

_ Ele é bom para mim, é velho e muito sofrido.

 Ivaní não se acostuma com a liberdade, eu pensei. Mas vem ela um dia de manhã, com sua roupa de ir embora do serviço e me mostra a suprema liberdade. A liberdade que só tem quem não tem nada. A liberdade de não querer mais e sair. Sem outro emprego, sem outra fonte de renda, que seja. A gente se vira com o que tem. A liberdade de quem antes, pode escolher as poucas escolhas que tem.

 Ela escolheu o tempo todo. Ela testou a gente algumas semanas. Eu querendo assinar carteira e ela com um papo de que vocês tem que me testar antes. Mas ela é que testou e escolheu sair da casa que não tem lugar de guardar as coisas.

Ontem fiquei com saudade da rotina, desde que casei não tenho uma. Com o neném, tive que instituir uma rotina simples, mas é a minha própria regra e posso quebrá-la a qualquer tempo.

Ainda estou me acostumou a isso. Ivaní não se acostumou. Ivani, de sempre, tem sua suprema liberdade e foi embora, sem se justificar, embora eu não tivesse perguntado.

Vou ter que arrumar outra moça, que bote um pouquinho mais de sal no feijão. Outra moça menos perguntadeira.

 


Sinto me apresentar assim: como um pedaço de papel. Sou a senhora 901 da torre B deste condomínio. Recebi ontem, por meio do encarregado, uma notificação assinada pela senhora e endereçada a meu avô, proprietário deste apartamento, que informa ter sido identificado que eu infringi a Convenção Condominial.

Sinto decepcionar meu avô que me confiou este apartamento. Depois, peço sinceras desculpas por não observar as regras internas de convivência, coisa tão básica que me envergonha ter dado desnecessário trabalho a senhora – que apesar de seus afazeres diários ainda se dedica nobremente ao bem estar de nossa comunidade.

Confesso que tenho andado omissa e por isso me desculpo não só pela não observância do código, mas pelo completo desleixo que tive com ele: não consegui descobrir o que fizemos que possa ter ido de encontro a Convenção Condominial.

A notificação diz que infringi o artigo 5° letra G que dispõe: “Não decorar as paredes, portas e esquadrias externas com cores ou tonalidades diversas” e Letra I “Não colocar nem deixar que coloquem nas partes comuns do edifício quaisquer objetos sejam de que natureza forem”.

Sou tão desligada dessas coisas de decoração que não sei, veja, o que exatamente significa essa palavra. Tive que pedir ajuda ao meu dicionário de cabeceira que assim me orientou: decorar vtd enfeitar, tornar mais bonito, aprender de cor.  Visto isso, posso te garantir com honestidade que decorar é coisa que nunca fui dada a fazer.

Sou avessa à decoração, nunca às normas. Um dia, quando puder, passe em minha casa e verá que claramente que ela não contou com a presença de um decorador. As coisas cumprem suas funções, sem muita harmonia estética.

Mas passe em nossa casa e verá que há um conjunto de normas, estabelecidas por nós e deixadas clara aos visitantes e amigos logo na entrada de casa: aqui é proibido fumar, que temos um filho pequeno e é proibido dar refrigerante para o neném, que temos certas tendências natureba.

Garanto a você que nunca decorei paredes, portas e esquadrias externas com cores ou tonalidades diversas. Tampouco me recordo, perdoe, de colocar ou deixar que coloquem nas partes comuns do edifício quaisquer objetos sejam de que natureza forem.

Assim, não sabendo o que descumpri, fui notificada a providenciar a reposição original da porta no prazo de trinta dias.

Sinto muitíssimo, mas não será possível. A porta original foi completamente destruída e nem para fazer prateleira serviu.  É verdade, Leni, conforme relataram, troquei a minha porta, mas devo dizer que não foi decoração.

Um dia meu marido saiu para o cinema, foi direto do trabalho, e eu combinei por telefone que abriria a porta assim que ele chegasse. Nesse dia estava especialmente cansada e superestimei minha capacidade de me manter acordada. Ele tocou, tão diversas vezes, e não tendo sido ouvido teve um mau presságio.

Nesse dia, murrou a porta com tanta força que acordou minha vizinha. Prontamente, e era tarde da noite, ela se dispôs a ajudar. Pensou que se tratasse de uma briga de casal, ofereceu um pouso para ele aquela noite.

Tratava-se de sono, mas para ele era já desespero. Pensou que poderia ter ocorrido algo a mim ou a meu filho e derrubou a porta a chutes. (Não zanguei com ele, Leni, pelo contrário. Meu marido é um cara bom a ponto de as vezes não ser racional. Um dia venha conhecê-lo.)

Mas dizia que troquei a porta sim, não a decorei. Fiquei sem a porta da frente e não encontrei para vender porta semelhante a as portas da maioria do condomínio, embora tenha procurado.

O vendedor de uma das lojas disse, ao ver a foto em meu celular, que essas portas estão fora de linha e de moda: que besteira é esse assunto de decoração. Por fim, não escolhi porta do meu agrado – que não entendo de porta – mas comprei a que a loja disponibilizava pronta entrega.

Portanto, não decorei a porta com cores ou tonalidades diversas. Não decorei coisa alguma nunca em minha vida. Contudo, minha nova porta ficou sim em tonalidade diversa, mas porque não tive o capricho de envernizá-la.

De qualquer maneira, se colocar verniz na minha nova porta for contribuir para o bem estar e a convivência entre os moradores, me disponho com carinho a cumprir a notificação antes mesmo dos trinta dias que me foram dados. Vou aguardar somente a indicação de um profissional da maior confiança do condomínio que posso me ajudar na agradável tarefa de manter o padrão.

Como já disse, me agradam padrões e me incomoda, mesmo neste prédio, pequenas transgressões a eles. Se não me manifesto, peço desculpas novamente, é que tenho sido omissa.

Incomoda-me a escada – lugar onde já passei uma experiência terrível por causa da minuteira, que não é de longe o sistema mais apropriado de iluminação para uma escada – descumprir normas da ABNT, me incomodam vírgulas excessivas em comunicados diversos, me incomoda a altura de água da piscina estar acima do padrão.

Nada disso disse antes, embora pudesse melhorar a vida de meus vizinhos. Não tenho sido uma boa vizinha, sei, mas como o Braga continuo sonhando com o dia em que os vizinhos vão bates em minha porta :“Vizinha, vi que sua porta foi arrombada, está tudo bem? Conheço um bom marceneiro”. “Vizinha, vi que você me convidou para o aniversário de seu filho”. Entre, coma do meu pão e beba do meu vinho. “Eis-me aqui, vamos celebrar a vida”.

Natasha Siviero – 901B