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Um amigo me fez uma pergunta simples e profundíssima. Obviamente esperava de mim uma demorada reflexão e uma resposta cheia de redundância enfática. Decepcionei-o com uma sentença besta e um tanto nojenta. O que de maior você já fez pelo seu filho? era a pergunta. Fígado!: assim, na lata, não gastei meio segundo.

Antes de casar não havia cozinhado, nada, mesmo. Depois que casei, os amigos vinham em casa e tinham a impressão que eu fazia dieta. Era salada de alface o que saia, que nunca me propus a cozinhar carne. Aliás, fui mesmo dessas crianças modernas, de apartamento, de babá. Não suporto ver carne crua e frango inteiro na mesa, não como.

Chegou, porém, o dia de fazer a primeira comidinha do neném. Era mãe novata, tão cuidadosa, tão cheia de querer fazer tudo e quis fazer eu mesma, com a ajuda da receita do médico: sopa de fígado.

Fui pela primeira vez ao açougue. Fígado não é carne feito as outras carnes, que não cozinho. Fígado é a carne que não mexo, nem cozida, que não posso nem com o cheiro. Segurei bem na pontinha da sacola.

Em casa, sozinha, Miguel dormia o soninho da manhã, mas breve acordava para o almoço. Foi preciso encarar, com pressa, sem muita cerimônia. Quem sabe com que embrulho no estômago cortei aquela carne, refoguei, fiz a sopa. Que sopa terrível. Eu era mãe.


Hoje eu fiz uma coisa muito inapropriada para uma mãe: fui a praia. E tão inapropriada e desobediente, levei meu filho comigo. Hoje passamos batido pelo parquinho e tomamos sol na areia. Coloquei meus pés no mar, estava frio, e abaixei o neném até que ele também encostaste os pezinhos na água fria, ele precisava de batismo. Chamei Deus. Deus te batize Miguel.

Depois fiz outra coisa tão inapropriada! Fui a piscina e nadei sozinha. Idas e voltas na piscina e Miguel no carrinho, ao sol, que não é para os bebês. Meu Deus, hoje eu fui a praia, nadei na piscina e ainda pior o que estava por vir.

Escrevi um texto ali mesmo, destes que a gente escreve na cabeça e fala umas palavrinhas para não esquecer e que nunca vai parar no papel. E eu fiquei tão feliz de escrever que achei o texto muito bonito.

E ainda comi doce de leite no pão.


Miguel saiu ao pai. Tem sobretudo os olhos e o jeito manso de Rafael. As mães do parquinho, sempre previsíveis, dizem que trabalhei de bandida.

_Que injustiça, não é? A gente que carrega…

Se é injustiça é das boas, das melhores, que orgulho de mãe é ter filho com os olhos do pai.

_Mas tem meu nariz, eu digo.

E é verdade.


A psicóloga da creche me disse que a adaptação à nova rotina é um processo mais difícil para a mãe que para o bebê e acrescentou que os bens mais valiosos que os pais podem dar a seus filhos são amor e limites.

Hoje acompanhei o segundo dia de Miguel na escolinha. Ele ficou muito bem na presença das outras crianças, o difícil era convencê-lo a ficar dentro da salinha, já que percebeu rápido que se vencesse o meio portão e um pequeno corredor, chegaria ao parquinho de areia.

A brincadeira no parquinho é as oito, agora é hora da salinha, Os outros já estão habituados e os próprios pequenos fecham o portão quando entram para as atividades. Todos brincam o que foi proposto pela tia, a não ser Miguel, que quando não procura maneiras de transpor o portão insiste na janela, e Sarah, que prefere brincar comigo no canto da sala.

Sarah é a loira, de cabelos cacheados. A pequena é muito esperta e sabe as cores e o nome das pessoas. Ela fala mais que os outros, mas não entendo o que ela fala, porque fica todo o tempo com a chupeta na boca. Peço a ela que tira a chupeta para que eu possa entendê-la. “Mamãe vem me buscar”

Depois, Sarah aprendeu a tirar a chupeta para falar comigo – as tias já sabem as frases dela. “Mamãe vem me buscar, mamãe está vindo me buscar”.

Tia Nininha convence a pequena a tirar a pepê e ela se junta ao grupo por alguns instantes. “A Sarah não precisa de chupeta” é a outra frase dela. Arrastou um carinho e voltou para o canto, agora chorando e esfregando o olhinho, sem alarde, um choro contido: “pepê, pepê”. Depois se recompõe, sem deixar de chorar: “ a Sarah não precisa de chupeta”.

Na fila que leva as crianças do grupo 2 ao almoço, Brenda tem um ataque repentino de choro “ Princesa não chora, Brenda”, a tia falou e foi o suficiente, mas a outra – que não é princesa – resolveu chorar durante toda a cantiga que antecede o almoço.

Na salinha, Miguel provoca pequenas insurreições entre os pequenos. Algumas vezes dois ou três engrossaram o coro dos que querem sair, fazendo plantão na janela e na portinha, mas logo vinha um coleguinha e trazia os outros para sala: “ é hora da salinha”.

A disciplina é um processo um pouco doloroso, mas rápido, e quanto mais novo melhor. Émais fácil viver em norma. Difícil é o caminho inverso, sem chupeta, sem sucesso e sem saber quem vem buscar depois do almoço.


Há uma cena em minha cabeça, essa que eu vi hoje. Mas não pretendo contá-la, apenas descrevê-la, que sua beleza é tão explícita! Primeiro, confesso que não sou dessas que preferem ler um livro em sua língua original. Não, eu assumo humildemente que leio as traduções e que minha preferência por literatura brasileira é antes a preferência da língua: gosto do português, como de nenhuma outra.

Mas digo isso por que há um trecho em inglês na cena que vou contar e que não posso mudar –nem quero –sequer traduzi-lo.

Passei pelo escritório, meu marido tocava violão para meu filho. Não é que tocasse violão com meu filho por ali, tocava para ele e com amor nos olhos.

It´s not time to make a change
Just relax and take it easy
You´re still young That´s your fault
There´s so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want you can marry
Look at me
I am old but I´m happy


Disseram-me que estou com semblante pesado: cansaço de mãe. Mas devo dizer que é tristeza. Essa tristeza que toda mãe leva nos olhos. Aprendemos que a dor do outro é a dor de um irmão, mas, para as mães, a dor do outro é a dor de um filho. Me perdoe se eu disser que no coração de mãe cabem todas as dores do mundo.