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Quando cheguei aqui foi logo depois da guerra. Ninguém tinha esse costume não, de fazer expedição. O Brasil acho que era uns cinqüenta anos atrasado em relação a Europa. Ninguém não subia morro assim de graça e me perguntavam para quê chegar lá em cima para depois descer. Lá na época o morro da Urca eu vinha sozinho, hoje dá fila de gente. E nas outras reservas era só eu mesmo e os guardas me conheciam. Você ainda não está na idade, minha filha, que é nova, mas vai chegar os trinta anos e é bom fazer exercício todo dia que assim acostuma. Você diz hoje que eu tenho oitenta? Mas isso faço desde novo quando cheguei depois da guerra. E o Brasil era atrasado mesmo. Aqui lente de contato não tinha, por isso fazia fila lá na ótica. Hoje é que essas descartáveis fica mais fácil de usar, né? Aí a ótica já não dá esse lucro.Só que isso chegou foi quando os filhos já todos criados. Você vê: hoje já nem vou lá que não tenho paciência, mas a Joanna tomou conta. Ela que é toda instável que vive mudando de ideia, pois ela mesmo é que toma conta. O Francisco quando começou a estudar eu achei que fosse ficar na ótica. Aí fez mestrado, doutorado. Achou que ser ótico ia ser muito degradante para ele…


Mariana não é triste, é bonita e magra, fala baixinho. Exagerando, diria que ela tem a idade da criança que toma conta.

_Fiz 23 semana passada. Paty me deu um celular.
_Mas você parece tão novinha…

Estávamos na cozinha. Eu fazia uma comidinha para meu filho e ela sentada mexia no telefone novo.

_Você veio para cá há muito tempo?
_Xi, tem mais de dois anos que estou na Patrícia.
_Você é de onde?

Mariana disse o nome do lugar, que não me recordo, e completou que é a cidade das babás. “Sabe aquele condomínio novo em Camburi, de frente para o mar –disse orgulhosa –todas as babás são da minha cidade”.

Mariana me contava que tem 2 chips no celular. Um só para falar com a tia, que mora perto da mãe. A mãe vive na roça onde não pega telefone, por isso ela dá notícia através da tia. “E minha tia é uma segunda mãe. Morei 13 anos na casa dela, tomando conta dos meninos dela. Não era bem um trabalho, ela não me pagava, mas me dava as coisas”.

_Tenho saudade, mas não voltava para lá. Lá é muito ruim de trabalho, a gente não ganha tão bem quanto aqui. Aqui eles pagam muito bem.
_E você vai lá ver sua mãe.
_Ah! Isso sim. Vou todo mês, quando folgo.
_Só folga uma vez no mês?
_É, mas daí fico cinco dias.

Mariana me contou da irmã, que também é babá e já está velha, com 27 anos vive na casa dos outros, não tem amigo nem namorado. “Tem é nada dela”.

Alguém entrou na cozinha: Viu, Mariana? Natasha tem sua idade e já está aí, casada, fazendo a comida do filho. E você não tem nem namorado. É. –disse ela – mas sem tristeza.


Estou em um desses dias em que olho pedra e só vejo pedra mesmo. Assim, passava por mim uma crônica sem que eu percebesse, mas eis que minha vizinha a escreveu para mim. Transcrevo:
(Antes preciso dizer que no elevador do meu prédio há um L, lá em baixo de todos os outros botões. O L é inapertável e mesmo que fosse possível apertá-lo, não levaria a lugar algum.)

Quando entramos no elevador havia um pai com uma revista e duas filhas, com cerca de sete e nove anos. A mais nova apertou o quarto, virou-se ao pai e disse:
_ Papai, para que serve o L?

Todo morador sabe que a garagem é G e a portaria P. Assim sendo, o pai respondeu prontamente e sem desviar o olho da página:
_ Não há L, minha filha
_ Tem sim, papai. Olha!
_ Não há L, minha filha. O L não existe.

O homem se despediu educadamente, deram se os boa noites.

_ Fico muito satisfeita ao ver esses pais com tanta paciência com os filhos – disse a vizinha.
_ Oi? – respondi, desconcentrada.
_ O L existe. Que existe, existe. O pai disse que não; a menina olha tonta, deve ser doida, viu o L, mas ele não existe. Mas que existe, existe. E continua ali: todo L e sorrindo.

O homem grande

Há ao meu lado um homem grande – preciso escrever. Sorte minha letra ser ilegível, que ele poderia ler meu bloquinho, tão perto que está. Mas todos olham para frente: há uma palestra. Já não sei mais do que se trata porque o homem grande tem as mãos enormes e o peito e as costas. Vejo minha cabeça em seu peito, sento no seu colo com a cabeça em seu pescoço. Tenho vontade que ele me abrace com as mãos grandes no meu quadril. Olho tanto o homem e tanto penso. Tenho medo que ele perceba. Ele é todo grande, os ombros, as pernas, as mãos. Nunca reparei homens grandes, mas tenho vontade de olhá-lo. Então olho os ombros e os braços.