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Um amigo me fez uma pergunta simples e profundíssima. Obviamente esperava de mim uma demorada reflexão e uma resposta cheia de redundância enfática. Decepcionei-o com uma sentença besta e um tanto nojenta. O que de maior você já fez pelo seu filho? era a pergunta. Fígado!: assim, na lata, não gastei meio segundo.

Antes de casar não havia cozinhado, nada, mesmo. Depois que casei, os amigos vinham em casa e tinham a impressão que eu fazia dieta. Era salada de alface o que saia, que nunca me propus a cozinhar carne. Aliás, fui mesmo dessas crianças modernas, de apartamento, de babá. Não suporto ver carne crua e frango inteiro na mesa, não como.

Chegou, porém, o dia de fazer a primeira comidinha do neném. Era mãe novata, tão cuidadosa, tão cheia de querer fazer tudo e quis fazer eu mesma, com a ajuda da receita do médico: sopa de fígado.

Fui pela primeira vez ao açougue. Fígado não é carne feito as outras carnes, que não cozinho. Fígado é a carne que não mexo, nem cozida, que não posso nem com o cheiro. Segurei bem na pontinha da sacola.

Em casa, sozinha, Miguel dormia o soninho da manhã, mas breve acordava para o almoço. Foi preciso encarar, com pressa, sem muita cerimônia. Quem sabe com que embrulho no estômago cortei aquela carne, refoguei, fiz a sopa. Que sopa terrível. Eu era mãe.


_Vai se chamar Berenice – respondi à médica que girava aquele trem gelado na minha barriga 

_Graças a Deus, não vai – disse ela – que não gostou do nome.
Meu marido deu um salto da cadeira, com sorriso orelha a orelha. Explicaram-me, antes que eu conseguisse entender:
_É menino.
….
Por mim coloco Benedito, mas o coro da galera “Benedito não, coloca Bento”, e papai sempre categórico:
_Bento que Bento é o Frade.
Minha irmã quer Theo, que significa dádiva de Deus. Mas para mim Theo é apelido de Theobaldo e eu quase sempre ignoro as sugestões da minha irmã, que sempre vem faltando letra. Enzo, que falta o R; Luca, que falta o S; Nando, que falta uma sílaba inteira; Léo, que falta mais do que tem.
Não é que eu não goste de nome pequeno, aliás, meu preferido é Brás, que considero muito nobre. Rafael diz que é nome de caminhoneiro, pode ser, mas caminhoneiro nobríssimo. Ele quer Omar.
Omar é um homem velho e triste que passou a vida sentindo que faltava alguma coisa, sem perceber que era o S que faltava. E que se existisse, continuaria miserável, o pobre.
Só não fico com Brás, e muito a contragosto, porque significa gago. Então, escolhi Samir.
_Não era menino? , perguntou um amigo, mui ignorante.

Depois me disseram que Samir significa companheiro falante. E eu, que imagino meu filho muito articulado, mas não tagarela, fiquei novamente a chamá-lo menino.

 


Minha avó diz que dor na gravidez se trata é com chá, mas na dúvida procurei um médico. Tinha na cabeça dois nomes de maternidade que ofereciam plantão, só que a atendente da primeira informou que àquela hora não havia obstetra por ali.

Na segunda, me mandaram para o terceiro andar, mas não sem antes alertar que o médico estava no meio de uma cesariana e que duas mulheres já esperavam para serem atendidas.

Subi. Uma das mulheres não passava bem e andava amparada por uma enfermeira. A outra era gorda e eu não sei dizer se também estava grávida.

Fui esperar no sofá, perto do bebedor. O corredor era branco e as luzes todas enfileiradas, uma após a outra, uma após a outra. A flor subia pálida no jarro pálido. As caras das mulheres, das enfermeiras, da atendente negra: tudo muito branco e silencioso.

Só o que se ouvia era uma mulher gritando ao fundo, espaçadamente e com dor, o que me levou a me perguntar se em cesariana também se grita.

Creio que se gastou uma hora. Quando o homem alto – que não sei se marido da mulher que gritava ou se dá que esperava amparada na enfermeira – passou para buscar água pela quinta vez, me levantei e fui para casa esquentar água, limão e mel.


Eu disse a ele que podia, não haveria problema. Seguro, dei certeza. Ele concordou – e não era de esperar o contrário –, mas depois ficou preocupado. Eu ri do desespero ingênuo dele, ora, já havia dado certeza! Que não mais me perturbasse nesse assunto, e passássemos adiante.

Mas não passamos. Como poderia eu ter tanta certeza, ele quis saber. E eu fui obrigada a explicar que isso é coisa de mulher. Que o dom da maternidade é anunciado por uma luz, que nos ilumina e nos abraça no momento da concepção, que nos prepara e abençoa. E naquela noite, ora, ora, eu não vi a luz.

Uma quinzena depois, só por desencardo, fiz o teste de farmácia: positivo. De sangue: positivo. De sangue por outro método: positivo. Em outro laboratório: é…

Os que esperam ainda uma crônica hão de zangar comigo.Perdoe, mas é só um conselho que tenho a dar nessas linhas. Um conselho simples, mas valioso, que se resume a uma máxima: a concepção, minha amiga, pode ocorrer de luz apagada. E que Deus nos abençoe.


Não estacione: garagem. Este foi o maior contrasenso da humanidade durante boa parte da minha infância. Soava quase como não coma: comida. Ora, não era esse o grande objetivo da garagem?

Um dia eu chamei a atenção da minha mãe para o aviso estúpido. Explicou-me. E a garagem se pacificou na minha vida até há pouco.

É que meu pai cismou de fechar com vidro a minha varanda. Reclamamos, eu e minha jaboticabeira, com quem divido o espaço. Ela, veementemente, insistindo em conservar as folhas secas, não a devolvesse o vento que vem do morro. Eu, porém, limitei-me a cobrar explicações de papai.

Me Mostrou o barulho insuportável do alarme da garagem. Ainda não havia me atentado, mas quase todas as garagens modernas têm um alarme que toca toda vez que entra ou sai um carro. De novo o mesmo tormento: dessa vez me pareceu quase como um alarme antichamas no fogão. Não serviria a garagem para entrar e sair carros?– questionei-me mais uma vez.

O problema é que o barulho pode passar uma vida inteira despercebido, mas se você se atenta para ele uma vez, já era. Por isso,caso você comece a se incomodar, caro leito, devo pedir desculpas e alertá-lo que nada mais funciona dentro da minha casa enquanto o alarme alerma: um carro entra ou sai da garagem.


Como assim, vó, não dormiu em casa? –perguntei muitíssimo preocupada.

 Pois é, a avó dele ligou para a outra avó dele que ligou para minha irmã que me ligou.. Ninguém tem notícia dele.

Meu Deus, Rafael sumiu.

Sentei na cama confusa. Na mesa de cabeceira, o celular de Rafael não registrava nenhuma chamada, embora todos estivessem preocupados. Do meu lado, Rafael dormia, feito um anjo, mas não havia tempo para pena.

_Rafael, acorda, você sumiu!

 Depois ele acordou e ninguém havia se preocupado. Fofoca espalhada, o recado estava dado. Quem diz que mobilização em rede social surgiu com internet não tem avó.


Falaram que não posso centrar a crônica no meu próprio umbigo, mas hoje decidi não me policiar: confesso que tenho sido egoísta. Falo de um caso que poderá não fazer sentido a mais ninguém, mas conto como se importasse. Espero que pelo menos quem tenha uma avó possa me entender e sorrir, com compaixão por mim ou por ela.

Detesto mesquinharias. Sou tão desatenta a coisa pequena que faz melhor você, meu amigo, desistindo de me mandar um bolo, caso essa possibilidade já tenha passado por sua cabeça.

“Natasha não devolve tapuer”, é o que minha avó está espalhando por aí. Mas se você não tem contato com a sabedoria da velhinha, encarrego eu mesma de alertá-lo: não devolvo.

Primeiro foi um bolo, depois brigadeiros, gentil, vovó. Mas tenho cá minha teoria que antes ela espera pela minha gafe. Não quer me agradar, minha doce vó, quer o gosto de me acordar antes do usual e dizer que tudo desanda em sua cozinha sem os tapuer (qual é o plural de tupperware, meu Deus?).

Juntei os ditos e os meti dentro da bolsa, já imaginando que minha fama de desleixada se agravaria ainda mais pelo fato de estar devolvendo os vazios. Minha avó mora do lado da casa útil, pensei. Não é melhor comprar cinco potes novos por 1,99 a atormentar uma pessoa assim tão desnecessariamente?

Concluí que sim, ainda mais sendo eu a pessoa. Nesse momento passou Aline, que tomou uma vasilhinha da minha mão, menos interessada na história que contaria e mais no som que tirava do plástico.

Se alguém perguntar por mim, diga que fui por aí, levando um violão debaixo do braço. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro. E se houver motivo, é mais um samba que eu faço.

Batucamos as duas todo nosso caminho em direção à segunda aula e quem esbarrou conosco batucou também. Mas ah! nosso som era muitíssimo mais bonito, por que eu tenho avó e um tapuer vazio na bolsa.