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Já aconteceu de começar a ler um livro mais de cinco vezes e nunca conseguir terminá-lo. É que algumas palavras me consomem. Esse do Ubaldo eu comprei em um sebo e nunca pude sequer iniciar a leitura. Para Berenice como tudo mais; a dedicatória, antes que eu chegasse à primeira página. Ele amava a mulher com tudo e eu nunca (?) saberia amar como a Berenice.

Um dia brincávamos de jogos de tabuleiro na casa do Marlon, a tarefa era adivinhar o nome de artistas pelas dicas que os outros jogadores davam. A essa altura, eu já sabia que se tratava do escritor, mas minha vez tardava a chegar e continuavam as dicas. “Tem uma filha chamada Berenice”, disse meu amigo.

Era filha dele! Tudo se iluminou e eu me senti mais humana.

Eu a desejo desde que é apenas uma idéia. Mas se eu dissesse que desejei apenas que viesse com saúde, estaria me atribuindo virtudes que não soube ter. Pedi que viesse com saúde, fosse menina e tivesse os olhos do pai. Sendo atendida em todos os meus desejos, chamei-a Maria. E a amarei como a Berenice.

 


Um amigo me fez uma pergunta simples e profundíssima. Obviamente esperava de mim uma demorada reflexão e uma resposta cheia de redundância enfática. Decepcionei-o com uma sentença besta e um tanto nojenta. O que de maior você já fez pelo seu filho? era a pergunta. Fígado!: assim, na lata, não gastei meio segundo.

Antes de casar não havia cozinhado, nada, mesmo. Depois que casei, os amigos vinham em casa e tinham a impressão que eu fazia dieta. Era salada de alface o que saia, que nunca me propus a cozinhar carne. Aliás, fui mesmo dessas crianças modernas, de apartamento, de babá. Não suporto ver carne crua e frango inteiro na mesa, não como.

Chegou, porém, o dia de fazer a primeira comidinha do neném. Era mãe novata, tão cuidadosa, tão cheia de querer fazer tudo e quis fazer eu mesma, com a ajuda da receita do médico: sopa de fígado.

Fui pela primeira vez ao açougue. Fígado não é carne feito as outras carnes, que não cozinho. Fígado é a carne que não mexo, nem cozida, que não posso nem com o cheiro. Segurei bem na pontinha da sacola.

Em casa, sozinha, Miguel dormia o soninho da manhã, mas breve acordava para o almoço. Foi preciso encarar, com pressa, sem muita cerimônia. Quem sabe com que embrulho no estômago cortei aquela carne, refoguei, fiz a sopa. Que sopa terrível. Eu era mãe.


_Vai se chamar Berenice – respondi à médica que girava aquele trem gelado na minha barriga 

_Graças a Deus, não vai – disse ela – que não gostou do nome.
Meu marido deu um salto da cadeira, com sorriso orelha a orelha. Explicaram-me, antes que eu conseguisse entender:
_É menino.
….
Por mim coloco Benedito, mas o coro da galera “Benedito não, coloca Bento”, e papai sempre categórico:
_Bento que Bento é o Frade.
Minha irmã quer Theo, que significa dádiva de Deus. Mas para mim Theo é apelido de Theobaldo e eu quase sempre ignoro as sugestões da minha irmã, que sempre vem faltando letra. Enzo, que falta o R; Luca, que falta o S; Nando, que falta uma sílaba inteira; Léo, que falta mais do que tem.
Não é que eu não goste de nome pequeno, aliás, meu preferido é Brás, que considero muito nobre. Rafael diz que é nome de caminhoneiro, pode ser, mas caminhoneiro nobríssimo. Ele quer Omar.
Omar é um homem velho e triste que passou a vida sentindo que faltava alguma coisa, sem perceber que era o S que faltava. E que se existisse, continuaria miserável, o pobre.
Só não fico com Brás, e muito a contragosto, porque significa gago. Então, escolhi Samir.
_Não era menino? , perguntou um amigo, mui ignorante.

Depois me disseram que Samir significa companheiro falante. E eu, que imagino meu filho muito articulado, mas não tagarela, fiquei novamente a chamá-lo menino.

 


Minha avó diz que dor na gravidez se trata é com chá, mas na dúvida procurei um médico. Tinha na cabeça dois nomes de maternidade que ofereciam plantão, só que a atendente da primeira informou que àquela hora não havia obstetra por ali.

Na segunda, me mandaram para o terceiro andar, mas não sem antes alertar que o médico estava no meio de uma cesariana e que duas mulheres já esperavam para serem atendidas.

Subi. Uma das mulheres não passava bem e andava amparada por uma enfermeira. A outra era gorda e eu não sei dizer se também estava grávida.

Fui esperar no sofá, perto do bebedor. O corredor era branco e as luzes todas enfileiradas, uma após a outra, uma após a outra. A flor subia pálida no jarro pálido. As caras das mulheres, das enfermeiras, da atendente negra: tudo muito branco e silencioso.

Só o que se ouvia era uma mulher gritando ao fundo, espaçadamente e com dor, o que me levou a me perguntar se em cesariana também se grita.

Creio que se gastou uma hora. Quando o homem alto – que não sei se marido da mulher que gritava ou se dá que esperava amparada na enfermeira – passou para buscar água pela quinta vez, me levantei e fui para casa esquentar água, limão e mel.


Eu disse a ele que podia, não haveria problema. Seguro, dei certeza. Ele concordou – e não era de esperar o contrário –, mas depois ficou preocupado. Eu ri do desespero ingênuo dele, ora, já havia dado certeza! Que não mais me perturbasse nesse assunto, e passássemos adiante.

Mas não passamos. Como poderia eu ter tanta certeza, ele quis saber. E eu fui obrigada a explicar que isso é coisa de mulher. Que o dom da maternidade é anunciado por uma luz, que nos ilumina e nos abraça no momento da concepção, que nos prepara e abençoa. E naquela noite, ora, ora, eu não vi a luz.

Uma quinzena depois, só por desencardo, fiz o teste de farmácia: positivo. De sangue: positivo. De sangue por outro método: positivo. Em outro laboratório: é…

Os que esperam ainda uma crônica hão de zangar comigo.Perdoe, mas é só um conselho que tenho a dar nessas linhas. Um conselho simples, mas valioso, que se resume a uma máxima: a concepção, minha amiga, pode ocorrer de luz apagada. E que Deus nos abençoe.


Para que tanto peito, meu Deus, se o leite é fraco?Eu disse que não havia leite fraco, mas só mulher fraca. Custo a acreditar que sou dessas mulheres, aguadas. Mas há tanto choro. E não há consolo.

O peito é quente, meu filho, e o coração também, se te interessa, mas o leite…Me desculpe, meu filho. Ah! Como eu quero te alimentar com meu corpo, com meu sangue. Não me digam que o seu leite tem que vir da farmácia.


Hoje eu fiz uma coisa muito inapropriada para uma mãe: fui a praia. E tão inapropriada e desobediente, levei meu filho comigo. Hoje passamos batido pelo parquinho e tomamos sol na areia. Coloquei meus pés no mar, estava frio, e abaixei o neném até que ele também encostaste os pezinhos na água fria, ele precisava de batismo. Chamei Deus. Deus te batize Miguel.

Depois fiz outra coisa tão inapropriada! Fui a piscina e nadei sozinha. Idas e voltas na piscina e Miguel no carrinho, ao sol, que não é para os bebês. Meu Deus, hoje eu fui a praia, nadei na piscina e ainda pior o que estava por vir.

Escrevi um texto ali mesmo, destes que a gente escreve na cabeça e fala umas palavrinhas para não esquecer e que nunca vai parar no papel. E eu fiquei tão feliz de escrever que achei o texto muito bonito.

E ainda comi doce de leite no pão.