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Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie. 


Era uma borboleta num meio fio. Não voava, mas batia as asas apesar de mim. A dor era dor física, nunca escrevi sobre ela. Também nunca havia sentido uma dor feito aquela, uma dor de limite. Se disser que a sensação era de morte é por falta de jeito de explicar. A verdade é que não era, mas eu não queria usar a palavra transcendência. (é que sou contra a banalização das palavras) Era uma sensação de auge, quando não há como subir. A dor era pior antes de atingir o auge. Agora, no limite, eu entrava num estado em suspenso.A sensação estável em seu auge.

Nesse estágio em suspenso nada me ocorreu. Foi uma espécie de esclarecimento vazio, como é todo esclarecimento. Nenhum pensamento, e sentimento era só a dor (em suspenso) e a borboleta no meio fio.

Só depois tive medo. Quando remédio fez efeito senti fome e medo. O médico disse que podia ser grave e, fosse o que ele esperava, operávamos dali a pouco. Então já não era a borboleta no meio fio. A dor se sobrepõe ao medo A dor encoraja? Sem dor somos covardes. Ou humanos.

Falava do medo. O medo é que sabia que não podia encarar Deus. Preciso ainda alfabetizar três crianças. Quem sentiu a sensação de dever cumprido senão professora de menino? Só quem ensina a ler.

O episódio aconteceu há algumas semanas. Hoje fui ao médico chegar tudo e está tudo okay, Nunca mais senti dor. Mas não alfabetizei ninguém.


Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie.

Ontem sonhei que ia a igreja (mas uma outra igreja, nova) e no caminho passei por um caminhão frigorífico de peixe. O fato-sonho é que haviam três homens mortos estirados no chão e um deles usava um boné –esse me chamou muito a atenção, era forte e novíssimo. Perguntei a alguém o que acontecera: o caminhão travou as portas e todo gelo de derreteu matando os homens afogados.Isso um passante, que estava parado, me contou sem mais. Não havia nem curiosos, era uma coisa banal.

Mas dizia que ando medrosa e  estive estudando para recuperar a fé, o que foi um fiasco. É verdade que fui a uma igreja nova, mas fui para entender  porque me afastava, não para ser resgatada. Se corresse o risco de ser convertida, não iria a uma igreja pentecostal. Se bem que essa não fosse, mas ontem mesmo no trânsito – já que a praia foi interditada para o evento religioso – ouvi na rádio da igreja universal (tenho essa mania) a recomendação do bispo para a mulher separada: frequentar o culto aos domingos e levar uma peça de roupa do marido. Em sete dias, dizia a mulher em depoimento comovido, ele que era bêbedo e havia encontrado uma amante no bar, voltara para casa.