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Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie. 


Outro dia experimentei um êxtase pós-cansaço. Minhas pernas não me respondiam. Houve um pouco de medo. Depois o corpo inteiro relaxou os músculos, nada parecia responder. Eu tinha consciência da minha falta de controle. Nada dependia mais mim e já não havia medo ou cansaço. Isso era amor. Finalmente entreguei o corpo e foi um êxtase. Uma sensação de morte.

Morrer é bom, não precisa tanto medo.

Não quando se é jovem. Quando se luta em desespero para ficar, com a gana que se tem quando é jovem.Há pouco eu vivi isso, quando se foi um amigo, querendo ficar. Quando morre um jovem são muitas mortes e uma tragédia sem consolo.

Mas a morte, quando é chamada e vem, depois do cansaço, é bonito ir. Primeiro as pernas, os braços e depois entregar o corpo. Se entregar em paz e dormir. Hoje com sol e tanta vida, é um bonito dia para morrer. Para se entregar, depois da luta, como quem finalmente venceu. A vida.


Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie.

Ontem sonhei que ia a igreja (mas uma outra igreja, nova) e no caminho passei por um caminhão frigorífico de peixe. O fato-sonho é que haviam três homens mortos estirados no chão e um deles usava um boné –esse me chamou muito a atenção, era forte e novíssimo. Perguntei a alguém o que acontecera: o caminhão travou as portas e todo gelo de derreteu matando os homens afogados.Isso um passante, que estava parado, me contou sem mais. Não havia nem curiosos, era uma coisa banal.

Mas dizia que ando medrosa e  estive estudando para recuperar a fé, o que foi um fiasco. É verdade que fui a uma igreja nova, mas fui para entender  porque me afastava, não para ser resgatada. Se corresse o risco de ser convertida, não iria a uma igreja pentecostal. Se bem que essa não fosse, mas ontem mesmo no trânsito – já que a praia foi interditada para o evento religioso – ouvi na rádio da igreja universal (tenho essa mania) a recomendação do bispo para a mulher separada: frequentar o culto aos domingos e levar uma peça de roupa do marido. Em sete dias, dizia a mulher em depoimento comovido, ele que era bêbedo e havia encontrado uma amante no bar, voltara para casa.