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Não é medo de morrer, medo é que se vá quem a gente gosta. Quando se trata da gente mesmo, só pode ser pena, que viver é coisa boa como o quê. Mas digo isso antes de ser mãe, depois, preciso confessar, ando medrosa de tudo. Disse que se não voltasse a escrever procurava um psicanalista que tenho tido sonhos de toda a espécie. 


Vá lá que ando de fato meio aborrecida e todos os dias tenho me aborrecido por motivinhos minúsculos. E esse já me fez bufar tantas vezes que até me pareceu que havia perdido a graça . Quantas vezes eu falei dele e escrevi linhazinhas reclamando. Digo, estou tão chata – e todo chato é prolixo – que ainda não disse o que me aborrece e agora me ocorreu que talvez seja melhor mesmo eu nem dizer, que está dado que estou uma amargura! e posso gastar um bom tema como se fosse uma implicância velha


Quando cheguei aqui foi logo depois da guerra. Ninguém tinha esse costume não, de fazer expedição. O Brasil acho que era uns cinqüenta anos atrasado em relação a Europa. Ninguém não subia morro assim de graça e me perguntavam para quê chegar lá em cima para depois descer. Lá na época o morro da Urca eu vinha sozinho, hoje dá fila de gente. E nas outras reservas era só eu mesmo e os guardas me conheciam. Você ainda não está na idade, minha filha, que é nova, mas vai chegar os trinta anos e é bom fazer exercício todo dia que assim acostuma. Você diz hoje que eu tenho oitenta? Mas isso faço desde novo quando cheguei depois da guerra. E o Brasil era atrasado mesmo. Aqui lente de contato não tinha, por isso fazia fila lá na ótica. Hoje é que essas descartáveis fica mais fácil de usar, né? Aí a ótica já não dá esse lucro.Só que isso chegou foi quando os filhos já todos criados. Você vê: hoje já nem vou lá que não tenho paciência, mas a Joanna tomou conta. Ela que é toda instável que vive mudando de ideia, pois ela mesmo é que toma conta. O Francisco quando começou a estudar eu achei que fosse ficar na ótica. Aí fez mestrado, doutorado. Achou que ser ótico ia ser muito degradante para ele…


Uma mulher que não faz o serviço de casa serve pela libido. Mas para que serve uma mulher sem libido que não faz o serviço de casa, é o que tenho me perguntado nesse cinco de março. Há muito se passou o cinco de março, mas ela faz como se nem desse conta, por que tem o bloquinho. Esse bloquinho serve um pouco para distrair as pessoas: a moça cuida do bloquinho como um tesouro. Ninguém pode pegar o bloquinho e nele ela escreve tanto, tão compenetrada e com mistério que as pessoas ficam se perguntando: o que será que tanto a moça escreve no bloquinho? Ao invés de também se perguntarem para que serve moça distraída, sem libido e que não faz o serviço de casa.

 


Outro dia experimentei um êxtase pós-cansaço. Minhas pernas não me respondiam. Houve um pouco de medo. Depois o corpo inteiro relaxou os músculos, nada parecia responder. Eu tinha consciência da minha falta de controle. Nada dependia mais mim e já não havia medo ou cansaço. Isso era amor. Finalmente entreguei o corpo e foi um êxtase. Uma sensação de morte.

Morrer é bom, não precisa tanto medo.

Não quando se é jovem. Quando se luta em desespero para ficar, com a gana que se tem quando é jovem.Há pouco eu vivi isso, quando se foi um amigo, querendo ficar. Quando morre um jovem são muitas mortes e uma tragédia sem consolo.

Mas a morte, quando é chamada e vem, depois do cansaço, é bonito ir. Primeiro as pernas, os braços e depois entregar o corpo. Se entregar em paz e dormir. Hoje com sol e tanta vida, é um bonito dia para morrer. Para se entregar, depois da luta, como quem finalmente venceu. A vida.


Se não escrevo não é o tempo que me falta, mas o amor, que me comovia às coisas pequenas. E mesmo o amor às grandes causas não tem habitado em mim. A discussão sobre quem é deus tem sido infrutífera. Ò Deus, habite em mim o amor.


Era uma borboleta num meio fio. Não voava, mas batia as asas apesar de mim. A dor era dor física, nunca escrevi sobre ela. Também nunca havia sentido uma dor feito aquela, uma dor de limite. Se disser que a sensação era de morte é por falta de jeito de explicar. A verdade é que não era, mas eu não queria usar a palavra transcendência. (é que sou contra a banalização das palavras) Era uma sensação de auge, quando não há como subir. A dor era pior antes de atingir o auge. Agora, no limite, eu entrava num estado em suspenso.A sensação estável em seu auge.

Nesse estágio em suspenso nada me ocorreu. Foi uma espécie de esclarecimento vazio, como é todo esclarecimento. Nenhum pensamento, e sentimento era só a dor (em suspenso) e a borboleta no meio fio.

Só depois tive medo. Quando remédio fez efeito senti fome e medo. O médico disse que podia ser grave e, fosse o que ele esperava, operávamos dali a pouco. Então já não era a borboleta no meio fio. A dor se sobrepõe ao medo A dor encoraja? Sem dor somos covardes. Ou humanos.

Falava do medo. O medo é que sabia que não podia encarar Deus. Preciso ainda alfabetizar três crianças. Quem sentiu a sensação de dever cumprido senão professora de menino? Só quem ensina a ler.

O episódio aconteceu há algumas semanas. Hoje fui ao médico chegar tudo e está tudo okay, Nunca mais senti dor. Mas não alfabetizei ninguém.